Como construir diálogos

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Como construir diálogos

Mensagem  Admin em Ter Set 18, 2012 9:00 am


Numa narrativa o diálogo tem algumas funções específicas. Essas funções são muito importantes na construção duma história e permitem-nos atingir objectivos na exposição ficcional.

O diálogo permite-nos (e deve) desempenhar funções como:

Mostrar em vez de contar – A interacção entre as personagens permite-nos antever situações e abordar temas, evitando o abuso da narração expositiva. As personagens tornam-se reais quando agem e falam, ajudando a cativar o leitor.

Impulsionar a acção - Os diálogos devem permitir que a história avance, impulsionando as personagens em direcção às suas metas. Não devem servir para reter o leitor ou para fornecer informações excessivas, mas sim permitir que a interacção das personagens os faça progredir e acrescente algo à história, dando o empurrão necessário à concretização dos objectivos das personagens.

Construir tensão e drama – As interacções entre personagens intensificam o enredo, expõem facto de outras formas mais apelativas para o leitor, ajudando-o a relacionar-se com a história e com aquilo que está em jogo.

Mostrar o carácter da personagem – Não só através daquilo que é dito, como no que é silenciado. Esta é a forma como nos expomos uns aos outros na vida real, sem texto expositivo a acompanhar, só com subtexto.

Criar espaços em branco na página Para que o texto não seja tão compacto que se torne maçudo, em vez de atingir os objectivos narrativos a que se propõe.

Assim, o que é um bom diálogo?

Diria que um bom diálogo é, um que cumpra os seus objectivos de exposição, obedecendo a regras de execução e que seja cativante para o leitor.

Para atingir a qualificação de um bom diálogo, quais os cuidados a ter na sua criação?

Quais os cuidados a ter ao criar um diálogo?

Cuidado com as marcações do diálogo – As marcações são as palavras que colocamos antes ou depois do diálogo, como por exemplo: “ele disse”, “ela perguntou”, “respondi”.

Cuidado com a tendência de colocar palavras como “sussurrou” ou “gritou”. Normalmente chega colocar um “Ele disse” e evitar ao máximo usar estes complementos. Quando as personagens começam a “gaguejar de forma estranha”, a “opinar” ou a “rir”, acabamos por distrair os leitores do próprio diálogo.

Normalmente também conseguimos evitar adjectivos. Num bom diálogo, os leitores sabem o que é dito “com alegria” ou “gritado furiosamente”.

Basear o diálogo numa cena – É fácil cair na armadilha das marionetas, duas personagens que discutem algo sem texto que o suporte. Todas as conversas ocorrem em algum lugar, e esse local ou cena é importante no diálogo. Ou seja: Onde estão as personagens? Num café movimentado, a conduzir o carro, em casa? Quem está perto dele? Pessoas estranhas, crianças, o chefe?

Não devemos ter acção ou descrição a seguir a cada linha de diálogo, mas precisamos de criar um ambiente, onde as personagens estejam localizadas fisicamente.

Os diálogos telefónicos acrescem em dificuldade. As personagens não estão frente-a-frente, pelo que podemos acrescentar profundidade às cenas usando tons de voz e adicionando ruídos de fundo às cenas.

Uso de dialectos e de pronúncias com cautela – Não abusar das palavras escritas noutros dialectos ou com pronúncias estrangeiras. Isto atrapalha a compreensão do texto, e pode causar outras complicações como tornar o texto ofensivo ou cómico, sem haver motivos para isso.

Normalmente, menos é mais. Uma personagem Escocesa não precisa de soar como um poema de Burns, basta uma expressão ocasional e o leitor capta a ideia. Assim como se tivermos uma personagem que seja menos letrada ou que não usa a gramática correctamente, não devemos sobrecarregar o texto com esses erros. Algumas expressões vão estabelecer a “voz” da personagem, não sendo necessário retirar letras em todas as palavras.

Não deixar uma personagem monopolizar o diálogo – Normalmente não discursamos nas nossas conversas, na vida real. Em algumas situações, uma pessoa pode falar durante alguns minutos, numa palestra ou num discurso, mas isto limita-se a ocasiões especiais.

É preciso cortar os grandes blocos de discurso de uma só personagem. As outras personagens podem solicitar clarificações, ou interromper o discurso, ou introduzir respostas não verbais das outras personagens (acenar, suspirar, franzir o sobrolho…).

Se o enredo exigir um grande discurso de um só personagem, é preferível mostrar algumas frases do início e do fim, e apresentar um sumário narrativo do que foi dito. Isto é suficiente para o leitor entender a história.

Realístico não significa Real – O diálogo deve proporcionar uma sensação de realidade, mas não deve ser uma transcrição de como realmente falamos. Não é aconselhável colocar os “hums”, hesitações e repetições, porque torna-se aborrecido para o leitor quando o sobrecarregamos com maneirismos das conversas reais.

Cada personagem tem um padrão distinto de discurso – As personagens não podem soar todas da mesma maneira. À semelhança da realidade, cada um de nós tem uma forma de falar, uma “voz” própria, distinta de todas as outras. Para além desta diferença entre iguais, há ainda distinções em função da idade da personagem. O discurso de alguém de 13 anos é diferente de alguém de 70. Assim como de género, homem e mulher exprimem-se de forma diferente. Ou diferenças relacionadas com a classe social, a zona geográfica, entre outras. Todas estas características reflectem-se nas muletas verbais usadas, que mudam de pessoa para pessoa, e da verbosidade da personagem.

Um bom truque é separar o diálogo das personagens, retirar as marcações do diálogo e a acção e ver se conseguimos identificar quem disse o quê.

Não colocar texto expositivo no diálogo – Às vezes é preciso reunir informação sobre as personagens, mas não devemos forçar estes esclarecimentos no diálogo.

Igualmente, devemos evitar diálogos óbvios entre personagens, ou seja, diálogos com informação que o outro personagem já deveria saber. Se o quisermos fazer devemos assegurar-nos que a conversa é apropriada. Dois amigos que não se vêem há 10 anos, podem colocar a conversa em dia e dar detalhes da sua vida. Aqui a informação não seria óbvia porque as personagens não se relacionaram durante uma certa quantidade de tempo.

Usar o silêncio assim como o diálogo – Às vezes, o que não é dito é mais poderoso do que aquilo que é. Se um personagem diz “Amo-te” e o outro não diz nada em retorno, normalmente é mais forte do que uma resposta do género “OK” ou “Também.”

Quando uma personagem se recusa a responder a uma questão, ou a falar com uma pessoa em especial, imediatamente percebemos que algo se passa, sem o autor ser demasiado expositivo, como por exemplo, “João não gostava de falar sobre o seu casamento” ou “João ignorou a chamada no seu telemóvel.”

Chega tarde e vai embora cedo – O diálogo não tem de começar na primeira palavra e terminar na última. Se alguém está ao telefone, corta os “Olá, como estás?” “Bem, e tu?”, porque o leitor não está interessado neles, e não acrescentam nada de útil ao diálogo.

Outra dica é terminar uma cena numa das linhas do diálogo. Não precisamos de ler a resposta da outra personagem, porque a informação estará subjacente à conversa que vinha a decorrer. Não precisa de terminar com “Adeus, até à próxima”.

Usar correctamente as regras do diálogo – Um diálogo deve ter uma linha para a fala de cada personagem. Pode ter aspas duplas (“ para EUA) ou simples (‘UK) a delimitar o que é dito, ou então usar os travessões para delimitar esse texto ( – Europa). Nesta última situação, o travessão precede a fala e separa-a da intervenção do narrador.

A pontuação deve ser colocada dentro das aspas, terminando uma linha de diálogo com uma vírgula, se estivermos a adicionar texto de marcação, ou com pontuação final (ponto final, reticências ou ponto e vírgula) se estivermos a adicionar uma acção.

Por exemplo:

“Podes chegar aqui?” disse Joana. “Precisamos de falar.”

“Sobre o quê?”

“Como se não soubesses.” Ela cruzou os braços.

O diálogo bem construído impulsiona a acção, enquanto se mantém o leitor devidamente informado e interessado
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