Biografia e Carta

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Biografia e Carta

Mensagem  sararuas em Sex Nov 16, 2012 7:39 pm

Biografia

António da Fonseca Santos foi um importante diplomata que trabalhou com Aristides de Sousa Mendes a partir de Portugal.
Nasceu em 1919, apenas um ano do fim da primeira grande guerra, num país onde reinava a instabilidade política. Era ainda novo quando Salazar tomou o poder. Filho de uma família burguesa de certas posses, mas de nenhuma maneira rica, teve direito a uma boa educação. Amigos e conhecidos descrevem-no como "um profundo amante dos clássicos gregos".
Entrou em 1937 no curso de Ciência Política da Universidade do Porto, depois de uma acesa discussão com os pais onde expressou o seu desejo de estudar antes Filosofia. Foi no entanto nos seus anos de estudante nesta cidade que encontrou a sua vocação: ajudar os outros. À medida que os ventos vindos do interior do continente pintavam um quadro cada vez mais horrífico. À medida que o fim do curso se aproximava, António sentia crescer em si o desejo de ver por si próprio se as descrições que apanhava brevemente de jornais clandestinos e palavras segredadas por trás de portas trancadas eram verdade. Nunca teve hipótese de concretizar este desejo, mas isso não o impediu de tomar estas afirmações por verdadeiras à mesma.
Através de excertos do seu diário apercebemo-nos de como era um homem sensível e dedicado "Pensam que não ouvimos o que vem de fora, tentam fazer de nós cegos e surdos; eu não sou nem um, nem outro, e mudo igualmente. Podem não me ouvir, mas hei-de gritar bem alto"(1941).
Acabou por arranjar trabalho no gabinete da Imigração, onde entrou em contacto com Aristides de Sousa Mendes. Reconhecendo-se mutuamente como humanistas e amantes da paz, trabalharam secretamente em conjunto para ajudar e instalar refugiados da guerra.
Casou em 1942, com a segunda filha de um casal de amigos dos seus pais. Apesar de Ana Maria Martins ser uma mulher mais devota aos assuntos do lar e pouco dada a literatura ou política internacional, foram ambos felizes e amaram-se profundamente, sendo abençoados com uma filha, Maria Graça, em 1943, chamada Maria Graça.
1943 foi também o ano da sua prisão pela PIDE. Foi mandado para uma prisão política, onde pereceu após seis meses, já em 1944, devido a uma pneumonia não tratada, sinal das más condições do cárcere onde foi mantido.
Apesar de ter tido uma vida curta, foi um grande humanista, e foi até nomeado para um Nobel da Paz postumamente. Apesar de este lhe ter sido negado, foi fundada uma instituição em seu nome, que hoje em dia acolhe vítimas de violência doméstica e sem-abrigo, tentando dar-lhes um rumo e reinseri-las na sociedade de maneira produtiva, ao mesmo tempo que procura justiça para com os seus agressores. É uma instituição caridosa que funciona como um lar para aqueles que nunca a tiveram, e como uma voz para aqueles que sempre a viram abafada.

[b]Carta[/b]

06 de Março de 1964
Querido pai,

Escrevo-te esta carta apesar de nunca te ter conhecido. Para além dos teus olhos e do teu nariz, herdei também os teus livros, que sempre gostei e comecei a ler logo quando aprendi. Gostaria de te dizer que os adoro. Acho que terias orgulho de mim por estar agora em Coimbra a estudar Filosofia. Poucos sabem quem foste e o que fizeste, menos a polícia política; esses nunca se esqueceram. Quando eu tinha dez anos assustaram-me ao entrar em casa do avô Justino, onde eu e a mãe estávamos a passar férias, e lhe bateram tanto quando ele começou a gritar para se irem embora que ele esteve às portas da morte. Ele morreu, mas foi há alguns meses atrás, vítima do cancro e não da PIDE. Suspeito que ainda nos rondam a porta de vez em quando...
A mãe vai andando e eu também. Ela não voltou a casar, vê-se que gostava mesmo muito de ti! E por falar em casamento, é por isso que te escrevo...Irei casar em breve! Tenho a certeza que ias gostar do meu noivo. Chama-se Luís Paz. Marcámos o casamento para o dia em que nasceste. És o herói dele. Ele faz muitas perguntas sobre ti, e fica horas e horas a ouvir a mãe e os avós a falarem de ti. Até pediu para vasculhar na cave umas caixas de coisas que eram tuas e que a mãe nunca conseguiu deitar fora, coisas como cartas e diários (tudo guardado debaixo de umas tábuas soltas no soalho, não venha a polícia...). Ele é muito bom rapaz, o único mal que tem é ser historiador!
Enfim, gostava de te ter conhecido. Quem me dera que me tivesses lido alguns dos teus livros favoritos, e que, à medida que eu fosse crescendo, os pudéssemos discutir. Gostaria de ter tido irmãos ou irmãs para brincar e arreliar. Gostaria de ter tido um pai.

Da tua filha, daqui da Terra para o Céu,
Maria Graça Fonseca Santos
(em breve Paz)

sararuas

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