História Triiste com Final Feliz

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História Triiste com Final Feliz

Mensagem  sararuas em Sex Nov 16, 2012 7:42 pm

Era uma vez eu. Vivia numa pequena cidade onde todos me conheciam. Não da melhor maneira, no entanto.
Queria voar. Era um desespero, uma ânsia que tinha. Todos os dias pegava na minha velha bicicleta e pedalava, pedalava cada vez mais depressa, até me sentir a voar. Com os cabelos ao vento, o seu assobio nos meus ouvidos, o sussurro frágil das árvores misturado com o canto doce dos pássaros. Era livre, livre, e o meu coração esvoaçava, batia forte, e tudo era vento, e eu voava porque também era vento...mas inevitavelmente tinha que voltar para casa, e assim acabava o vento.
O ar na cidade era pesado, respirava-se mal, e isso refletia-se nas pessoas. Eram também elas pesadas e irrespiráveis. Eu morava no sótão de um velho edifício, como uma enjeitada que tinha de ser mantida fora de vista. Aliás, acho que era assim que me viam. E, como me viam assim, eu tinha que ser assim, por isso eu e a minha bicicleta éramos para eles como intrusos na sua pacata vida, uma peça que não encaixava no puzzle, por mais que a empurrássemos para o buraco a que devia pertencer forçosamente, mas que por um qualquer defeito de fabrico irreparável se recusava a entrar...
Comentavam nas minhas costas, alto o suficiente para eu ouvir, mas como se segredando "Se tem uma doença de coração, porque se esforça?", "É igualzinha à mãe, aquela irresponsável que a jogou para aqui para nós cuidarmos dela sem dizer mais nada, e depois abalou logo, e nós, pessoas decentes e trabalhadoras é que temos que andar aqui, estando a vida como está, a fazer caridade a ingratos..."
Porque me tratavam daquela maneira, como se lhes devesse algo? Nunca lhes tinha pedido nada. Mas aquela ingratidão com que eu supostamente os tratava enervava-me , pesava-me o coração, forçava-me a abandonar aquela minha pequena e ferrugenta amiga e subir os degraus a dois e três para me refugiar no sótão minúsculo, desconfortável e degradado que me tinham designado. Lá a minha doença aferroava-me a alma, apertava-me o peito, sufocava-me como se fossem as palavras deles que vinham para me atacar, como se eles fossem a minha doença, me impedissem de ser feliz...Porquê? Porque é que a doença só atacava assim, forte, e à noite, quando eu corria desalmadamente e me refugiava, enrolando-me em sucessivas camadas do mesmo pequeno e fino cobertor? De dia, quando andava na minha bicicleta nunca me sentia assim.
Queria fugir, mas não havia refúgio; para onde quer que olhasse só via provas da minha humanidade, de que estava presa a eles. Não queria ver mais, não queria! Tapava os olhos, os ouvidos a cabeça, tornava-me cega e surda, queria esquecer, mas ainda havia a dor, essa não saía, e então chorava, chorava desalmadamente, e eles gritavam ainda mais alto do que eu, para me calar, que era uma ingrata, e até os cães se juntavam em coro contra mim.
O que era eu? Porque era assim? Estes eram os meus pensamentos. Houve várias vezes que cheguei a epifanias estapafúrdias: um pássaro aprisionado em forma humana, rodeado por muros e pessoas que me construíram uma gaiola tanto física como mental; um anjo caído que tinha perdido as asas. Não sabia.
Quando tinha estas crises, demorava horas a acalmar-me. Às vezes ficava no sótão por uns dias, trancada, vindo só à janela ver os espaço passar. O merceeiro fazia as suas contas, o talhante espiava os rapazes a jogar à bola, atirando-a ao ar e vendo-a cair outra vez, varrendo milhentas vezes o mesmo espaço em frente do seu estabelecimento, desconfiado de tudo, e uma qualquer dona de casa vinha arejar os seus melhores saltos altos e roupas domingueiras, trazendo um pequeno cão pela trela, os sapatos matraqueando pela calçada ao ritmo do seu passo coquete, trazendo as compras no mesmo braço que segurava a mala. O cão urina na minha querida bicicleta, que permanece ainda estendida e abandonada em frente ao prédio que habito.
Mas não me importo, a minha bicicleta está habituada a apanhar água, pois saio com ela até em dias de chuva torrencial. Pode estar ferrugenta, mas anda, e não faz barulho, nunca precisa de nada. É uma bicicleta muito estoica, como se não fosse um objeto, mas sim algo com força interior própria. É a melhor bicicleta do mundo.
Nesses dias em que ficava em casa, não me esquecia dos meus companheiros de aventura, e arranjava-lhes qualquer pão duro que me atirassem para lhes oferecer. Eles até pareciam afeiçoados a mim. Estavam sempre por perto quando eu não saía de casa, e durante o Inverno não imigravam. Estavam sempre presentes com o seu canto mavioso, incitando-me sempre a pedalar mais longe a cada dia, e olhando-me desaprovadora e animosamente quando eu voltava para trás, de volta para a cidade.
Com cada uma das crises eu ficava cada vez mais inquieta, mas ao mesmo tempo, num estranho contraste, sentia-me igualmente mais calma, após a tempestade que se dava na minha alma e no meu corpo. Era uma calma estranha, que parecia sempre querer despontar em algo mais, mas havia como que uma voz a dizer, de todas essas vezes, "ainda não".
As noites depois das crises eram sempre calmas. Oh, como eram maravilhosas! Os sonhos eram tudo o que eu queria, o que eu mais desejava - eu, voando. Como eu ficava desapontada quando o sol me acordava quando nascia por trás das janelas sem cortinas. Mas prontamente ia tomar banho.
Mas um dia, depois do banho, simplesmente fiquei a olhar pela janela a ver os meus companheiros. Não sentia vontade nenhuma em me vestir. E até a toalha me parecia pesada. O vento lá fora parecia querer levar-me. O céu estava azul puro. E os pássaros estavam fora da minha janela a fazer sons aflitos, num voo errático e algo inquieto. Então foi como se algo descesse sobre mim, como se uma porta se abrisse, como se a voz dissesse "agora sim". A toalha simplesmente caiu no chão, e senti-me então leve, leve como nunca me tinha sentido. Ainda lá deve estar, caída e húmida no chão daquele pequeno sótão despido de tudo.
Subi para o parapeito. Estava tão leve. O vento parecia querer empurrar-me para todo o lado. E deixei-me cair. A normalidade da cidade quebrou debaixo de mim. E subi, subi, enquanto eles encolhiam, como se a terra os estivesse a engolir por eles serem pesados, por terem os corações pesados.
Eu fui-me. Mas a normalidade deve continuar lá nessa pequena cidade. Talvez alguns tenham pensado que estavam malucos e agora tomem medicamentos. O talhante deve continuar a manter um olho nos rapazes que jogam à bola (talvez agora joguem com os pés em vez de a atirarem ao ar), e faça também ele um esforço para manter os olhos no chão, sempre a varrer o mesmo espaço à frente da porta do seu estabelecimento. Talvez os cães rosnem ainda baixinho à noite, com saudades do coro, com um olho aberto e meio a dormir, com saudades de terem a quem ladrar.
Talvez ainda esteja a dormir. Talvez...

sararuas

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